
A história da agricultura brasileira nas últimas três décadas também passa pelos corredores do Congresso Nacional, onde decisões sobre crédito, legislação, tecnologia, comercialização e infraestrutura influenciam diretamente a vida de quem produz. Nesse cenário, o deputado federal Dilceu Sperafico (Progressistas-Paraná) construiu uma trajetória política marcada pela defesa do agronegócio e pela participação em espaços estratégicos de discussão das políticas públicas para o campo.
Agropecuarista e empresário, Sperafico chegou à Câmara dos Deputados em fevereiro de 1995. Desde então, exerceu sete mandatos federais, com uma pausa entre o encerramento de seu sexto mandato, em 2019, quando cedeu lugar a José Carlos Schiavinato, e o retorno à Câmara, em 2023. Ao longo desse percurso, presidiu a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural em duas ocasiões, comandou a Frente Parlamentar da Agricultura em 2005 e participou de articulações parlamentares relacionadas ao cooperativismo, à pesquisa agropecuária e à extensão rural.
Mais do que uma sequência de cargos, sua trajetória acompanha parte das transformações do próprio agronegócio brasileiro: a expansão tecnológica das lavouras, o crescimento das cadeias de proteína animal, a integração entre agricultura e indústria, a importância das cooperativas e a necessidade de ampliar a competitividade da produção nacional.
Da realidade do campo à representação em Brasília
A atuação de Sperafico tem como uma de suas referências o Oeste do Paraná, região em que a agricultura, a pecuária, o cooperativismo e a agroindústria formam uma cadeia econômica integrada.
Em municípios como Toledo, o desempenho da produção rural está relacionado não apenas às condições das propriedades, mas também à capacidade de armazenamento, à disponibilidade de crédito, à assistência técnica, ao transporte e à presença de indústrias que transformam a matéria-prima em alimentos e outros produtos de maior valor agregado.
Essa realidade aparece em diferentes momentos da atuação parlamentar de Sperafico. Em seus discursos e artigos, o deputado frequentemente relaciona o trabalho do produtor rural ao desenvolvimento dos municípios, à geração de empregos e à movimentação da economia regional.
A perspectiva ajuda a compreender por que sua agenda política ultrapassa as questões diretamente ligadas ao plantio ou à criação de animais. Para o setor produtivo, produzir bem é fundamental, mas também é necessário financiar a atividade, armazenar a safra, transportar os produtos e encontrar mercados para a comercialização.
A Comissão de Agricultura: dois momentos de liderança
Um dos marcos mais expressivos da trajetória de Sperafico foi a presidência da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados.
A primeira experiência ocorreu entre março de 1999 e março de 2000. Anos depois, em 3 de abril de 2018, o parlamentar voltou a ser eleito para comandar o colegiado, recebendo 33 votos.
A comissão ocupa uma posição importante no processo legislativo brasileiro. É nesse espaço que são debatidas e examinadas propostas relacionadas à produção agropecuária, ao abastecimento, ao desenvolvimento rural e a diferentes políticas que afetam o cotidiano dos produtores.
Na eleição de 2018, Sperafico declarou que pretendia identificar os projetos mais importantes para o setor e priorizar sua tramitação. A proposta era utilizar a experiência acumulada no Congresso e o diálogo com outros parlamentares para avançar na agenda agropecuária.
A presidência de uma comissão não garante, por si só, a aprovação de projetos ou a execução de políticas públicas. Ela permite, contudo, participar da organização dos trabalhos, conduzir reuniões, promover debates e articular prioridades dentro do processo legislativo.
A repetição dessa experiência, com quase duas décadas de intervalo, evidencia a permanência da agricultura entre os principais eixos de sua atuação parlamentar.
Da Frente Parlamentar da Agricultura à FPA
A articulação política nacional é outro capítulo importante dessa trajetória. Em 2005, Sperafico assumiu a presidência da então Frente Parlamentar da Agricultura, sucedendo o deputado Ronaldo Caiado.
A entidade integra uma história de mobilização parlamentar que remonta à Assembleia Nacional Constituinte de 1987–1988. Formalizada em 1995 como Frente Parlamentar da Agricultura, a organização passou por mudanças e, em 2008, adotou a denominação Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
A distinção histórica é importante: a fundação formal da frente antecede o primeiro mandato de Sperafico. O que está documentado em sua trajetória é o exercício da presidência em 2005 e sua participação na articulação parlamentar do setor.
Na prática, a FPA reúne deputados e senadores de diferentes partidos em torno de pautas relacionadas à agropecuária. Sua atuação envolve acompanhamento de projetos, debates sobre legislação, diálogo com entidades representativas e mobilização política em temas considerados estratégicos para o setor produtivo.
Ao assumir a presidência, Sperafico passou a ocupar uma posição de articulação nacional, conectando as demandas dos produtores às discussões realizadas no Congresso.
Em discurso de 17 de maio de 2005, registrado nos anais da Câmara, ele se apresentou como presidente da Frente Parlamentar da Agricultura e integrante titular da Comissão de Agricultura. Na ocasião, destacou a posição de Toledo na produção agropecuária e relacionou o desempenho do município à capacidade dos agricultores e à integração entre campo, indústria e mercado.
O pronunciamento é revelador de uma visão que acompanharia sua atuação: o agronegócio não deve ser entendido apenas como atividade rural, mas como uma cadeia econômica que movimenta diferentes setores da sociedade.
Crédito rural: produzir também depende de condições para financiar a produção
Entre as questões recorrentes na agenda agropecuária está o acesso ao crédito. O financiamento rural permite custear o plantio, adquirir máquinas e insumos, investir em tecnologia e atravessar períodos de dificuldades climáticas ou econômicas.
Em pronunciamento de março de 2005, Sperafico defendeu medidas relacionadas à securitização e ao recálculo das dívidas agrícolas, aos juros do financiamento rural e à modernização da atividade agropecuária.
O tema continuou presente no debate político nos anos seguintes. Em 2018, por exemplo, a agenda da FPA incluiu uma audiência pública sobre o endividamento agrícola nos estados e municípios.
No mandato atual, a atuação ganhou um registro legislativo concreto. Em 2026, Sperafico foi designado relator do Projeto de Lei nº 950/2026, de autoria do deputado José Nelto, que propõe instituir um programa de securitização das dívidas rurais. Em julho, apresentou parecer favorável com substitutivo na Comissão de Agricultura.
O projeto busca criar mecanismos para reestruturar dívidas de produtores afetados por crises sistêmicas. A apresentação do parecer constitui uma etapa do processo legislativo, não uma aprovação definitiva da proposta.
A sequência de registros — dos pronunciamentos sobre crédito rural em 2005 à relatoria de uma proposta sobre securitização em 2026 — demonstra a permanência do financiamento entre os temas relevantes de sua atuação.
Infraestrutura: o caminho entre a propriedade e o mercado
A competitividade do agronegócio depende de uma infraestrutura capaz de acompanhar a dimensão da produção. Estradas rurais em boas condições, capacidade de armazenagem e sistemas eficientes de transporte influenciam os custos, as perdas e o tempo necessário para levar os produtos ao mercado.
Em setembro de 2016, Sperafico publicou o artigo As estradas rurais e a cadeia produtiva do desenvolvimento, no qual relacionou a infraestrutura rural ao transporte de produtos, ao recebimento de insumos e ao desenvolvimento regional.
No mesmo ano, em A bonita história do agronegócio de Toledo, abordou a integração entre agricultura, pecuária e agroindústria na economia do Oeste paranaense.
Essa perspectiva voltou a aparecer no mandato atual. Em 2026, Sperafico foi designado relator do Projeto de Lei nº 1.621/2026, que propõe criar o Programa Nacional de Armazenagem e Secagem da Produção Agropecuária.
O deputado apresentou pareceres favoráveis e um substitutivo à proposta, que busca ampliar a capacidade de armazenagem, reduzir perdas e fortalecer a infraestrutura produtiva. A matéria ainda dependia das etapas seguintes de tramitação legislativa nos registros consultados.
A armazenagem tem importância estratégica porque permite ao produtor conservar a produção e planejar melhor sua comercialização, reduzindo a dependência de vender imediatamente após a colheita. Em um país com grandes distâncias entre as regiões produtoras e os centros consumidores, a infraestrutura é parte decisiva da competitividade.
Biotecnologia e sementes: a legislação também influencia a produtividade
A tecnologia agrícola é outro eixo da atuação de Sperafico. Em 2003, ele integrou a comissão especial relacionada ao Projeto de Lei nº 2.401/2003, sobre biossegurança.
Em março de 2005, durante os debates sobre a Lei de Biossegurança, o deputado defendeu publicamente o uso de tecnologias agrícolas e a autonomia do produtor para decidir sobre a adoção de organismos geneticamente modificados.
Naquele momento, a discussão sobre biotecnologia estava diretamente relacionada às possibilidades de elevar a produtividade, modificar práticas de manejo e alterar custos de produção. Os argumentos econômicos apresentados pelo parlamentar em seus discursos, entretanto, devem ser entendidos como posicionamentos políticos, e não como resultados automaticamente comprovados para todos os produtores.
Dez anos depois, em março de 2015, Sperafico apresentou o Projeto de Lei nº 827/2015, destinado a alterar a Lei de Proteção de Cultivares, que disciplina a proteção jurídica de variedades vegetais.
A proposta tratava de regras relacionadas à cadeia produtiva de sementes e à proteção de cultivares. O projeto acabou arquivado em janeiro de 2019, sem se converter em lei por aquela tramitação.
O episódio demonstra uma iniciativa legislativa concreta em um tema que conecta pesquisa, propriedade intelectual, desenvolvimento tecnológico e produção agropecuária.
Cooperativismo: organização que fortalece o produtor
O cooperativismo tem papel importante no agronegócio paranaense. Ao reunir produtores, as cooperativas podem oferecer serviços técnicos, facilitar a compra de insumos, organizar o recebimento da produção, viabilizar armazenagem e participar do processamento e da comercialização.
Sperafico aparece na biografia oficial da Câmara como integrante da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop), articulação voltada ao debate e ao aperfeiçoamento da legislação relacionada às cooperativas.
Sua participação nesse espaço amplia o entendimento de sua atuação para além das demandas individuais das propriedades rurais. O desenvolvimento do agro também depende de organizações capazes de integrar produtores, ampliar o acesso aos mercados e agregar valor à produção.
No Oeste do Paraná, essa discussão ganha dimensão particular pela presença de cooperativas e agroindústrias que conectam a produção de grãos e a criação de animais à indústria de alimentos.
Embora a participação na Frencoop esteja documentada, a atribuição de leis específicas do cooperativismo ao deputado exige a identificação de projetos, pareceres e votações correspondentes. Essa distinção é importante para preservar a precisão histórica da reportagem.
Comércio e competitividade: defender a produção nacional
A relação entre produção e mercado também aparece nas iniciativas recentes de Sperafico.
Em dezembro de 2025, o deputado apresentou o Projeto de Lei nº 6.331/2025, que propõe proibir a importação de tilápia e seus subprodutos. A proposta está relacionada à discussão sobre as condições de concorrência enfrentadas pela produção aquícola brasileira.
O projeto não deve ser confundido com uma medida já implementada: nos registros consultados em 2026, sua tramitação ainda estava pendente.
A iniciativa demonstra que a agenda agropecuária alcança diferentes cadeias produtivas, incluindo a aquicultura. As condições de importação, a concorrência internacional e as exigências regulatórias podem afetar os produtores nacionais, mas a avaliação dos efeitos de uma restrição comercial depende de análise econômica, sanitária e jurídica específica.
Emendas e recursos: o que os registros orçamentários mostram
Além da atividade legislativa, o mandato parlamentar envolve a apresentação de emendas ao orçamento federal, por meio das quais deputados podem indicar destinações de recursos para diferentes políticas públicas.
Entre os registros orçamentários de Sperafico, a Câmara apresenta, em 2024, uma emenda de R$ 100 mil para a ação de pesquisa, desenvolvimento e transferência de tecnologias para a agropecuária, vinculada à Embrapa. O registro indica o valor autorizado, empenhado e pago.
A informação é relevante porque identifica uma destinação orçamentária relacionada à pesquisa agropecuária. Para afirmar que o recurso financiou um projeto específico ou gerou determinado resultado no campo, entretanto, é necessário consultar a execução detalhada e a documentação do beneficiário.
Essa cautela também vale para outras emendas: valores autorizados, empenhados e pagos representam etapas distintas da execução orçamentária. O acompanhamento dessas etapas permite diferenciar a indicação de recursos da sua efetiva aplicação.
Uma trajetória em sete mandatos
A atuação de Sperafico atravessa diferentes fases da política agrícola brasileira. Desde o primeiro mandato, iniciado em 1995, até o retorno à Câmara em 2023, sua trajetória registra participação em comissões, liderança em articulações parlamentares e iniciativas relacionadas ao crédito, à tecnologia, à infraestrutura e à comercialização.
O campo como parte de uma cadeia econômica
Ao longo de sua trajetória, Sperafico apresentou uma visão de desenvolvimento rural baseada na conexão entre produção, infraestrutura, indústria, financiamento e mercado.
Os registros parlamentares permitem identificar iniciativas concretas, como o Projeto de Lei nº 827/2015, arquivado em 2019, a relatoria do PL nº 950/2026 sobre securitização de dívidas rurais, o parecer ao PL nº 1.621/2026 sobre armazenagem e secagem e a autoria do PL nº 6.331/2025 sobre importação de tilápia.
Essas iniciativas têm estágios e resultados distintos. Algumas foram apresentadas e arquivadas; outras receberam pareceres, mas ainda dependiam de tramitação. A distinção é fundamental para compreender o alcance real da atuação parlamentar.
A trajetória também evidencia a importância de espaços coletivos de decisão, como a Comissão de Agricultura, a Frente Parlamentar da Agricultura e a Frente Parlamentar do Cooperativismo. Neles, as demandas de produtores, cooperativas e cadeias industriais podem ser levadas ao debate legislativo.
Para o Oeste do Paraná, onde agricultura, pecuária e agroindústria estão profundamente conectadas, essas pautas têm uma dimensão regional concreta. As decisões sobre crédito, estradas, armazenagem, pesquisa e comercialização influenciam a capacidade de produzir, gerar empregos e movimentar a economia.
Mais do que um conjunto de cargos, os sete mandatos de Dilceu Sperafico formam uma trajetória de representação política ligada ao agronegócio. Seu percurso reúne posições de liderança, pronunciamentos públicos e iniciativas legislativas que ajudam a compreender como os interesses do setor produtivo foram levados ao Congresso ao longo de três décadas.