
A possibilidade do empresário trilionário Elon Musk transformar a Starlink em uma concorrente direta das grandes operadoras de celular derrubou ações do setor de telecomunicações nesta sexta-feira (9). A SpaceX anunciou nos Estados Unidos um acordo para comprar frequências de 800 megahertz (MHz).
O negócio pode permitir à Starlink Mobile unir satélites e infraestrutura terrestre e se tornar uma grande operadora de telefonia móvel no país. O índice Stoxx Europe 600 Telecommunications chegou a cair 3,3% e atingiu o menor nível desde fevereiro.
Na Europa às 8h50 da manhã (horário de Brasília), a Deutsche Telekom (DTEGn) caía 6,65%, a Vodafone (VOD), -4,22%, a Orange (ORAN), -2,43% e a Telefónica (TEF), -3,64%. Nos EUA, T Mobile (TMUS) recuava 7,58% no pré-mercado, Verizon (VZ), -6,60% e AT&T (T), -7,24%.
A SpaceX afirmou que o espectro adquirido preenche uma das principais lacunas técnicas para que a Starlink deixe de funcionar apenas como complemento das operadoras tradicionais e possa disputar diretamente o mercado móvel americano.
"Esse espectro privilegiado de baixa frequência resolve uma das principais lacunas técnicas restantes que abrirão caminho para a Starlink Mobile se tornar uma grande operadora móvel nos Estados Unidos", afirmou a empresa em comunicado publicado na quinta-feira (8).
Compra de frequências muda o jogo
A operação anunciada pela SpaceX prevê a aquisição de 100% do portfólio nacional de espectro de 800 MHz pertencente à Grain Management. Segundo a própria Grain, o acordo depende da aprovação da Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC, em inglês) e de outras condições necessárias.
O portfólio inclui até 14 MHz de espectro pareado na faixa de 800 MHz. Esse detalhe é importante porque frequências mais baixas conseguem percorrer distâncias maiores e atravessar obstáculos físicos com mais eficiência do que frequências mais altas.
Isso ajuda a resolver uma limitação natural das conexões de celular diretamente com satélites, principalmente dentro de casas, escritórios e outros edifícios.
"Este acordo aplica essa capacidade em uma escala extraordinária, com potencial para mudar onde e como os americanos se conectam", afirmou o fundador e presidente executivo da Grain Management, David Grain.
A própria SpaceX afirma que pretende utilizar uma arquitetura flexível, com a constelação de satélites conectada diretamente aos celulares e uma rede terrestre complementar.
Com isso, a Starlink tentaria oferecer sinal em ambientes internos, externos e também nas chamadas zonas mortas, onde as redes tradicionais não chegam.
Wall Street teme um novo concorrente
Analistas passaram a tratar o anúncio como um risco de longo prazo para as empresas tradicionais de telecomunicações. O Citi disse considerar a notícia um risco contínuo para ações de companhias de telecom e TV a cabo.
O banco avalia que a possibilidade de a SpaceX se tornar uma concorrente com infraestrutura própria já pode ter contribuído para o desempenho recente mais fraco desses papéis, mas a preocupação não significa que a Starlink conseguirá substituir rapidamente as grandes operadoras.
A analista da ODDO BHF, Stéphane Beyazian, disse à Reuters que a SpaceX deve ser uma concorrente importante no leilão de espectro que a FCC pretende realizar em 2027, mas considera que ainda existem obstáculos antes de a empresa oferecer uma rede móvel comparável às atuais.
"Sem um acordo de roaming com um parceiro, levará anos para que a Starlink consiga construir e vender um produto de boa qualidade", avaliou.
De parceira da T Mobile a possível rival
A situação é particularmente curiosa para a T Mobile. A operadora americana foi uma das primeiras grandes parceiras da SpaceX no projeto de conexão direta entre satélites Starlink e celulares convencionais.
A parceria foi anunciada em 2022 e, desde então, a SpaceX desenvolveu sua rede Direct to Cell e colocou centenas de satélites equipados para funcionar de maneira semelhante a torres de telefonia móvel instaladas no espaço.
A própria Starlink explica que o serviço funciona com telefones LTE existentes quando o usuário possui visão do céu e que seus satélites possuem antenas capazes de atuar de maneira semelhante às torres de celular convencionais.
A primeira geração dessa rede já deixou de ser apenas experimental, com mais de 650 satélites Direct to Cell colocados em órbita em 18 meses e 12 milhões de pessoas conectadas ao sistema pelo menos uma vez.
O novo anúncio muda essa relação porque indica que a SpaceX pretende possuir parte da infraestrutura necessária para atuar de maneira mais independente no maior mercado móvel do mundo.
Starlink prepara celular 5G pelo espaço
A próxima geração da tecnologia também promete um salto expressivo de capacidade. A Starlink informa que seus satélites móveis V2 terão, aproximadamente, 20 vezes mais capacidade de transmissão do que os equipamentos da primeira geração.
A rede deverá permitir internet de alta velocidade diretamente nos smartphones, incluindo streaming de filmes, chamadas de vídeo, podcasts e trabalho remoto, com transição contínua entre redes terrestres e satélites.
FCC já autorizou expansão da constelação
O projeto ganhou outro impulso importante em janeiro de 2026. A FCC autorizou a SpaceX a construir, lançar e operar mais 7.500 satélites Starlink de segunda geração, elevando para 15 mil o total autorizado dentro dessa fase da constelação.
Segundo a agência americana, a expansão permitirá melhorar a cobertura móvel e os serviços complementares enviados diretamente do espaço. A autorização também permite avanços tecnológicos na constelação e novas faixas de operação.
O aval para os satélites, porém, não substitui a aprovação necessária para a compra das frequências de 800 MHz. O acordo com a Grain ainda precisa passar pelo processo regulatório antes que a SpaceX possa concluir a aquisição.